Prêmio TopBlog Brasil 2013/4

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Maria Lopes

10 junho 2015

O FILÓSOFO ROMANO HORÁCIO E A ORAÇÃO


O FILÓSOFO ROMANO HORÁCIO E A ORAÇÃO


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Horácio, poeta romano lírico e satírico, além de filósofo, viveu entre 65 a.C. e 8 a. C., sendo reverenciado como um dos maiores poetas da Roma Antiga. Epicurista, achava que era preciso aproveitar cada momento antes de morrer, ou seja, viver o presente sem demonstrar muita preocupação com o futuro. Acreditava na vida após a morte. Também ficou conhecido como o deus da Poesia. É dele esta maravilha de pensamento:
“Se um homem olhar com amorosa compaixão para seus semelhantes sofredores, e tomado de amargura indagar aos deusesPor que afligis meus irmãos? Ele é, sem dúvida alguma, olhado por Deus mais ternamente do que o homem que com Ele se congratula por ser misericordioso e o deixar florescer com infelicidade, tendo só palavras de adoração para oferecer. Porque o primeiro homem reza por amor e piedade, atributos divinos, tão próximos do coração de Deus, e o outro fala pelo egoísmo complacente, um atributo animalesco, que não se aproxima da luz envolvente do espírito de Deus.”
Observemos a época em que viveu Horácio, com o seu panteão inominável de deuses e a sua capacidade de entendimento, em relação à dor de outrem. Para ele, os deuses tinham muito mais amor por aqueles que os questionavam ou se enfureciam com eles, em razão do sofrimento dispensado ao próximo. Não se tratava de ódio, mas de raiva e insatisfação diante daquilo que julgava injusto. Pois o coração de quem pensa no seu semelhante é puro e generoso. Não carrega a ganância e nem o egoísmo que destroem a si e os outros. O que esbraveja, pra proteger o seu irmão menos favorecido, não quer ser feliz sozinho. Ele exige que haja compartilhamento.
Ao contrário do que diz Horácio, mesmo depois dos ensinamentos do Messias ao mundo, ainda vemos aqueles que jogam no segundo time dos criticados pelo poeta. Abaixo uma oração, que seria, com certeza, desprezada por Horácio:
Oração de Ação de Graças (Michel Quoist)
É maravilhoso, Senhor,
Ter braços perfeitos, quando há tantos mutilados!
Meus olhos perfeitos, quando há tantos sem luz!
Minha voz que canta, quando tantas emudeceram!
Minhas mãos que trabalham, quando tantas mendigam!
É maravilhoso voltar para casa, quando tantos não têm para onde ir!
É maravilhoso: amar, viver, sorrir, sonhar, quando há tantos que choram, odeiam, revolvem-se em pesadelos, morrem antes de nascer.
É maravilhoso ter um Deus para crer, quando há tantos que não têm o consolo de uma crença.
É maravilhoso Senhor, sobretudo, ter tão pouco a pedir e tanto a oferecer e agradecer. Amém!
Vemos aqui um exemplo claro de arrogância e falta de compaixão, onde o EU é a chave central. Nunca vi nada mais egóico e nem sei como alguém pode se julgar fiel a um Deus que é Amor com tal discurso. E pior, é um insulto aos que possuem necessidades especiais. Por isso, deveriam eles odiar Deus? Como posso me congratular com minha perfeição diante do sofrimento do outro? Eis um tipo de orgulho doentio, cheio de indiferença e frieza, que faz ouvidos moucos para o sofrimento alheio, uma vez que tudo está bem consigo. Não há nesta oração, um só pedido que seja, em favor dos sofredores e que possuem muito, mas muito mesmo, a pedir. Não consigo encontrar aqui um laivo de humanidade, mas uma tola cantilena, repleta de arrogância.
O espírito de superioridade fecha-se com chave de latão como se, na sua arrogância, pudesse oferecer coisa alguma:
É maravilhoso Senhor, sobretudo, ter tão pouco a pedir e tanto a oferecer e agradecer. Amém!
O rezador, o orador, o fiel, o devoto, o cristão, ou sei lá o quê, que faz tal oração, literalmente fecha olhos e ouvidos para os desfavorecidos, colocando-se acima deles, como se fora um ser especial. E julga santo o seu individualismo, isolando-se dos “imperfeitos”. Esse é o tipo de ser que mais perigo traz, pois se vê no mundo como um ungido do Senhor. Claramente diz que é melhor do que os outros, cheio de um excessivo orgulho, permanecendo na ignorância e no isolamento. Falta-lhe magnanimidade.
Tomás de Aquino ensinava que “A não ação é um tipo de ação. A omissão é diretamente contrária à justiça”. Portanto, cobrar do Criador uma vida menos doída para aqueles dilacerados pelo sofrimento é ação, enquanto enaltecer o próprio ego é omissão.
Eta! Que mundo louco, meu Deus. http://virusdaarte.net/horacio-e-a-arrogancia-na-oracao/

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